EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS NA VIDA COTIDIANA (EVC),PERSONALIZADOS
SEGUNDA SEMANA: CONTEMPLAÇÕES DOS MISTÉRIOS
DA VIDA DE JESUS - III
Opções com base nas consolações
e desolações
Repetições.
Ao
contemplar os mistérios de Vida de Jesus o exercitante, atento
às consolações e às desolações
e ao seu contexto, vai fazendo opções no seguimento
de Jesus Cristo.
A partir da Segunda Semana dos Exercícios Espirituais Santo
Inácio convida o exercitante a proceder por "contemplações".
Pretende Santo Inácio que o exercitante no decorrer da Segunda
Semana, ao fazer as contemplações, vá descobrindo
o estado, o modo, ou a "via" pela qual deseja sua Divina
Majestade se servir dele (EE 135). Na Terceira e na Quarta Semana
as contemplações levam o exercitante a se confirmar
na descoberta do seu modo de seguir a Jesus Cristo e na opção
feita.
Durante as contemplações da Segunda Semana o exercitante
vai descobrindo qual a sua vocação, qual a sua missão,
como ele é chamado para se identificar e seguir a Jesus Cristo.
Esta descoberta vai se processando através das experiências
de consolação e desolação e de discernimento
dos espíritos. Lembremo-nos que "na consolação
mais nos guia e aconselha o bom espírito, assim como na desolação
o mau" (EE 318). É importante também ter presente
o que diz Santo Inácio sobre a oposição existente
entre os modos de agir dos espíritos (EE 317), isto é,
o mau espírito atrai e move justamente para a direção
oposta para a qual o bom espírito está movendo e atraindo.
Daí a conhecida norma de ação inaciana: o agir
contra, isto é, agir na direção contrária
à tentação, na direção oposta
à sugerida pelo mau espírito.
Durante a Segunda Semana o exercitante vai fazendo opções
baseado no que Inácio denomina de 2o Tempo de Eleição,
isto é, quando faz suas opções porque "adquire
muita clareza e conhecimento, (de Deus atraindo e movendo a nossa
vontade e o inimigo perturbando a caminhada) através da experiência
de consolações e desolações, bem como
da experiência do discernimento dos vários espíritos"
(EE 176).
Pela atenção às consolações e
desolações ocorridas nas contemplações
e ao seu contexto o exercitante vai descobrindo para onde que, na
fé, na esperança e na caridade, na paz e na alegria
profunda, o Senhor vai lhe atraindo e movendo e o inimigo perturbando
e atraindo para a direção oposta.
O Senhor é o Senhor da vida e nos quer fazer participantes
da sua vida e da sua missão; o inimigo é a origem
do mal (mesmo quando mentirosa e sorrateiramente propõe o
mal sob a aparência do bem) e quer nos arrastar à suas
perversas propostas. Vamos, pois, percebendo para onde o Senhor
nos move e atrai, aderir a ele resolutamente. Vamos também,
descobrindo para onde o inimigo quer nos levar; então vamos
agir justamente na direção oposta. Assim, em vez de
nos desnortear com as tentações do inimigo, vamos,
agindo ao contrário da tentação, aproveitar
até os momentos de tentação para confirmar
as opções feitas nos momentos de consolação.
Como
proceder num Exercício na Vida com relação
às repetições.
Durante as contemplações
da Segunda Semana o exercitante faz opções visando
sua identificação e o seguimento de Jesus Cristo.
Não se trata de opções na busca de uma perfeição
autodefinida, nem mesmo importada de algum guru. Daqui se pode deduzir
a importância que Santo Inácio da às repetições.
Bem entendidas as repetições visam não tanto
um aprofundamento através de reflexões pessoais de
algo que foi descoberto, mas um maior conhecimento e maior experiência
do que foi revelado e sentido, abrindo-se espaço e se demorando
mais numa situação de contemplação para
que o mistério da vida, e de nossa participação
nesta vida, possa ser ainda mais claramente revelado e sentido.
Nas repetições com base nos momentos de consolação
voltamos a contemplar onde Deus estava se manifestando para deixá-lo
manifestar-se mais ainda e, da nossa parte, acolher sentida e agradecidamente
o que é revelado. Nas repetições com base nos
momentos de desolação procuramos remover os impedimentos
e obstáculos que impediam a manifestação do
Senhor, proporcionando assim um campo livre e aberto para a atuação
divina, que será acolhida amorosa e respeitosamente. A atenção
às consolações e às desolações
leva Santo Inácio à prática das "repetições"
que num retiro fechado ocupam grande parte do dia do exercitante.
Em um Exercício na Vida com relação às
repetições por um lado há a dificuldade da
presença dos diversos acontecimentos da vida cotidiana do
exercitante com tudo que ela pode trazer de envolvimento alheio
à manifestação de Deus e ao fruto incipiente
manifestado na consolação. Falta o silêncio
que favorece a concentração de todas as faculdades
e de toda a atenção mais voltada para o acolhimento
do vislumbrado Dom de Deus.
Por outro lado os Exercícios na Vida permitem ao exercitante
demorar quanto tempo quiser num mistério, sem pressa de passar
adiante (convém ficar muitos dias num mesmo mistério),
dando assim espaço amplo para as repetições,
evitando que "a consideração de um mistério
venha prejudicar a do outro". (EE 127).
Num Exercício na Vida vai ser anulado o fruto nascente da
contemplação? Não, pois a cena contemplada
lhe ficará durante o dia presente de vários modos.
a) "Primeiramente, ele (o exercitante) guarda a "lembrança"
dela. Ao longo de seu dia, em momentos de silêncio ou de confronto
consigo mesmo, um ponto do que foi contemplado reemerge, como um
tesouro que traz em seu coração, como uma luz que
reconhece estar aí e não o abandona, como um atrativo
ao qual, chegado o tempo, sabe poder ceder novamente. Não
há dicotomia, como se houvesse, de uma parte, a vida familiar
e profissional e, de outra, uma lembrança que precisaria
manter contra correntes ameaçadoras. Pelo contrário,
esta recordação acompanha a sua vida. Nela permanece
como um amor que não tem de se preservar da vida cotidiana,
já que lhe dá sentido e densidade. Esta lembrança
aprofunda aos poucos um desejo, o de retomar a contemplação
no ponto em que foi suspensa. Ela faz perceber melhor em que pontos
a contemplação deixou a consciência na insatisfação
e na espera. Permanecendo, por assim dizer, no coração
da atividade cotidiana, esta lembrança da cena evangélica
amadurece, sem que lhe prestemos mesmo uma atenção
especial. Desaparece, depois ressurge. Este aspecto da pessoa de
Cristo, esta palavra que pronuncia, encontram um novo eco que leva
ao desejo de ir mais adiante no conhecimento iniciado" (De
"A Experiência dos Exercícios Espirituais na Vida"
de Maurice Giuliani, sj, Ed. Loyola, 1991; pág 100).
b) Ao voltar ao mesmo mistério para continuar a contemplação
e para repeti-la o exercitante traz aqueles momentos de sua vida
quotidiana que serviram de base para as lembranças da contemplação
em andamento. Há, pois, através da vida cotidiana
um enriquecimento da própria contemplação.
"A verdade da vida cotidiana se insinua, por assim dizer, na
própria contemplação para orientar o exercitante
na leitura do texto evangélico, para torná-lo mais
sensível a uma palavra de Cristo que aí se encontra,
para levá-lo de modo mais real ao clima próprio da
cena contemplada". (Idem, pág. 100)
c) "De dia em dia, quer dizer, de repetição em
repetição, ou de lembrança em lembrança,
a própria vida cotidiana começa a ganhar uma luz inesperada.
A situação humana vivida pelo retirante lhe aparece
carregada com a mesma mensagem evangélica que a cena contemplada".
"Seu relacionamento com as pessoas e com o mundo se ilumina
e se purifica com o relacionamento que Cristo tem com todos que
encontra, que busca, que recebe". (Idem pág 102).
Através
das repetições, interagindo contemplação
e vida, vai acontecendo o discernimento.
"À medida que o retirante, contemplando Cristo no Evangelho,
se encontra mais remetido à sua própria história,
notamos que se dá um elo muito forte entre o movimento nascido
da contemplação (inclinações, alegria,
desejo de conversão etc...) e a apreciação
que faz de sua vida. Evidentemente não é possível
que uma "consolação", dom do Espírito
ao que contempla o Evangelho, se apague ao terminar o tempo da oração,
para dar lugar a uma "desolação" devida
a uma situação humana de provação ou
obscuridade. Igualmente não é possível viver
uma situação humana na paz e na confiança em
Deus e logo entrar numa contemplação que só
trouxesse aridez ou sofrimento. O tempo da contemplação
e o tempo da vida são correlatos, provando que o mesmo Espírito
está agindo. O retirante, feliz ao descobrir o dom que é
para ele o Cristo do Evangelho, reconhece que a mesma alegria lhe
é oferecida em sua existência cotidiana, mesmo em meio
à provação por que passa. E se está
tranqüilo no meio desta provação aceita na fé,
vai então encontrar em sua contemplação uma
nova fonte de descoberta do dom de Deus."
"Deste modo se realiza um discernimento. Aí onde a contemplação
do Evangelho ajuda a aumentar a fé através do dia-a-dia
da existência humana, aí onde esta mesma vida cotidiana
remete a uma contemplação mais simples e mais correta,
aí onde se assegura uma unidade mais sólida entre
estes dois momentos espirituais que são a contemplação
do Evangelho e o acolhimento da vida, pode o retirante reconhecer
que avança na linha do Espírito. Aí, ao contrário,
onde houver discordância, e sobretudo discordância prolongada,
entre a alegria da contemplação e uma tristeza diante
da realidade cotidiana, deverá ele novamente se interrogar
sobre o modo como realiza esta contemplação que não
dá frutos" (Idem pág 102/103).
Como fruto de uma boa contemplação o exercitante é
levado a optar, livre e resolutamente ("Eu quero e desejo,
e é minha determinação deliberada..."
EE 98), tirando, assim, proveito da contemplação.
Poderá também, pelo contrário, infelizmente,
adiar indefinidamente a concretização de suas opções
na adesão ao Cristo manifestado na contemplação.
Poderia também, por outro lado, acontecer a hipótese
de uma contemplação ilusória num contexto de
uma consolação fabricada. Neste caso as concretizações
das opções não gozariam da força das
opções resultantes de uma autêntica contemplação.
Por
fim se chega a uma c e r t e z a que fundamenta as opções.
"A palavra certeza, hoje tão suspeita, exprime exatamente
a segurança de quem sentiu despertar em si movimentos tornados
invencíveis. Movimentos nascidos de seu próprio fundo
humano cultural, mas cuja persistência e coerência levaram-no
a ver neles um sinal de um apelo, que lhe revela simultaneamente
o que era em si mesmo e o que Deus queria que fosse."
"Então pode a experiência do discernimento trazer
"bastante luz e conhecimento" para fundamentar uma decisão."
(Idem pág. 107)