Comentando Anotações II


EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS NA VIDA COTIDIANA (EVC), PERSONALIZADOS
A S  A N O T A Ç Õ E S
COMENTÁRIO ALTERNATIVO DAS "ANOTAÇÕES" SOBRE O MODO DE DAR E DE FAZER OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS (EE 1-21)

Nota: Este comentário alternativo das Anotações é uma nova redação do artigo do Pe. Paulo Pedreira de Freitas, SJ, com o título: Anotações (EE 1-20), publicado em Itaici, Revista de Espiritualidade Inaciana, 23 (1996) 14-19.

DA PESSOA HUMANA ADMITA PARA A PESSOA HUMANA NOVA EM CRISTO
     A primeira anotação e o número 21 do livrinho dos Exercícios Espirituais (EE) apresentam o que são os EE, descrevendo algo do seu desenrolar e indicando suas finalidades. Os EE são diversos modos de proceder, nos quais a pessoa é convidada a acolher e participar ativamente num processo de transformação existencial. A pessoa se prepara e se dispõe para compartilhar mais plenamente de uma caminhada, na qual, pelo simples fato de viver neste planeta, já está existencialmente comprometida, embora não totalmente consciente: da Pessoa Humana adamita, pecadora, para a Pessoa Humana nova, em Cristo. "Assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais, chamam-se exercícios espirituais diversos modos da pessoa se preparar e dispor para tirar de si todas as afeições desordenadas. E, depois de tirar estas, buscar e encontrar a vontade divina na disposição de sua vida para sua salvação".(EE l)
     "EE para vencer a si mesmo e ordenar sua vida, sem se determinar por nenhuma afeição desordenada" (EE 21). Toda pessoa humana participa da desordem acontecida no Adão pecador. É chamada, também, a participar na amorosa e misericordiosa iniciativa divina comunicando-nos novamente a vida através de Jesus Cristo. Todos os seres humanos estão comprometidos, mais ou menos conscientemente, neste misterioso drama de vida, de liberdade, de enganos, de amor misericordioso, concretizado na pessoa de Jesus Cristo! Os EE levam a pessoa a participar, livre e conscientemente, de modo mais pleno, no mistério da vida humana. O amor de Deus, em Cristo, recria e reconduz os seres humanos para o Pai. A iniciativa da doação da vida é de Deus. Os EE nos levam a constatar que não caminhamos sozinhos. Através deles, somos convidados a perceber e eliminar nossos desvios. Preparamo-nos, assim, para acolher o Cristo Salvador e aderir, resolutamente, a ele. Os EE são uma escola do seguimento e da identificação com Jesus Cristo.

EM BUSCA DO ENCONTRO COM ALGUÉM QUE ME ESPERA E ME REALIZA.
     Os EE são dados e recebidos. É imprescindível a ação de quem os dá e de quem os recebe. Contudo, há uma ação maior e fundamental, garantia de todo o processo. O que dá os EE "deve narrar fielmente a história de tal contemplação ou meditação, apresentando, breve ou sumariamente, os pontos. Pois, assim, a pessoa que contempla, tomando o verdadeiro fundamento da história, discorrendo e raciocinando por si mesma", descobre "alguma coisa" que a esclarece ou faz "sentir um pouco mais a história, seja pelo arrazoado pessoal, seja porque a inteligência é iluminada pela virtude divina". Encontra, assim, o que tanto deseja. Vai educando sua afetividade. Preparando a sua liberdade para extirpar as vontades desordenadas e acolher a amorosa vontade de Deus, dispondo de sua vida para lhe dar mais vida. "Não é o muito saber que sacia e satisfaz a pessoa", em toda sua afetividade, no seu coração, e a leva à mudança e ao crescimento, "mas o sentir e saborear as coisas internamente" (EE 2).
     É, pois, o protagonismo do Cristo, "da lei interior da caridade e do amor, escrita e impressa pelo Espírito Santo nos corações", (Proêmio das Constituições da Companhia de Jesus, número 134) que move a atrai a criatura e espera a sua resposta livre. A vida acontece na comunhão da criatura com o Criador e Senhor. Os EE preparam e dispõem a pessoa que os faz para a descoberta desta vida oferecida pelo Senhor e para, agradecida, aderir a ela. "Apenas continuo correndo para conquistá-lo, porque eu também fui conquistado por Jesus Cristo" (Fl 3,12).

COM MUITO RESPEITO, NO RITMO DE CADA UM
     Depois de uma procura, mais ou menos longa, ao encontrar tão grande e misteriosa presença, surge naturalmente o maior respeito. "Ao falarmos ... com Deus nosso Senhor ... requer-se, de nossa parte, maior reverência do que ao usarmos o entendimento para compreender". (EE 3)
     Cada pessoa ao fazer os EE leva consigo sua maneira de ser e sua história. Nada deixa de fora ou para ser resolvido depois. Os ritmos do encontro com o Senhor da História são diferentes. E devem ser respeitados. "Alguns são mais lentos para encontrar o que buscam,... Assim também, alguns são mais diligentes que outros, mais agitados ou provados por diversos espíritos. Torna-se, portanto, necessário, algumas vezes, abreviar a semana, outras vezes, alongá-la",... "buscando as coisas conforme a disposição das pessoas". (EE 4). Máximo respeito para as circunstâncias de lugar, tempo e pessoas!

ALGUEM, MERECEDOR DE TODA MINHA CONFIANÇA, ME ESPERA
     Certos de que estamos caminhando ao encontro de Alguém maior do que nós e que nos ama desmesuradamente, não vamos carregados de projetos, nem reservamos forças para o futuro. Tudo é oferecido "com grande ânimo e generosidade, para que sua divina Majestade se sirva, conforme Sua santíssima vontade, tanto de minha pessoa como de tudo o que possuo". (EE5).

QUEM PROCURA ENCONTRA
     A História da Criação, do pecado e da restauração em Cristo está aí, presente, na realidade dos homens e das mulheres deste mundo. Um verdadeiro drama. De amor e de ódio. De vida e de morte. O amor criador e misericordioso de Deus envolve tudo e todos. Os EE são, justamente, para fazer a pessoa entrar, cada vez mais conscientemente, em contato com esta realidade. Em todas os seus aspetos. De sombras e luzes. De joio e trigo. Perceber-se, realmente, como parte deste drama. Sentir, na pele, profundamente, as situações contraditórias. Identificar a vida e a morte. E tomar uma posição. Afastar, resolutamente, a autônoma e petulante vontade humana embebida no espírito adamita e acolher a mesma vontade humana unida amorosamente ao Espírito de Jesus Ressuscitado.
     Só não percebe o drama quem não estiver fazendo os EE devidamente. Aquele que fica na superfície dos acontecimentos mundanos. Quem dá os EE quando notar que quem os faz não tem agitações, como consolações ou desolações, deve "interrogá-lo muito sobre os exercícios de oração, meditação ou contemplação, se os faz, nas horas determinadas, e de que maneira. Igualmente sobre as adições, se as faz com diligência, inquirindo minuciosamente sobre cada um destes pontos." (EE 6).
     A pessoa que faz os exercícios pode se encontrar muito desolada. Seja porque não está se dedicando corretamente a eles, seja porque Deus lhe retirou as graças e favores abundantes que a deixavam consolada. Nesta situação quem dá os EE "não se mostre duro nem áspero para com ela, mas brando e suave, dando-lhe ânimo e forças para ir adiante. Descubra-lhe as astúcias do inimigo da natureza humana, preparando-a e dispondo-a para a consolação que virá". (EE 7)

AJUDANDO A DISCERNIR AS MOÇÕES DOS DIVERSOS ESPÍRITOS
     No desenrolar concreto da caminhada a pessoa humana é solicitada por dois espíritos contraditórios. Deus e os seus enviados, chamando para a vida verdadeira. Os instintos egoístas, os maus espíritos, perturbando a caminhada com suas insídias e enganos. Estas atuações dos diversos espíritos deixam ou imprimem suas pegadas em quem faz os exercícios. Estados de espírito, situações, sentimentos de consolação ou, pelo contrário, de desolação. "Quem dá os exercícios, conforme a necessidade que sentir em quem os recebe, acerca das desolações e astúcias do inimigo, ou das consolações, poderá propor-lhe as regras da primeira e segunda semanas" (EE 8), para conhecer a ação dos diversos espíritos e como se comportar diante desta realidade.
     Advirta-se que o modo de proceder dos diversos espíritos se adapta à situação concreta de quem faz os exercícios. O mau espírito pode tentar de maneiras opostas. Ou "grosseira e abertamente", por exemplo, com "moções para coisas baixas e terrenas", (EE 317) ou "sob a aparência de bem", com pensamentos bons e santos. (EE 332) É imprescindível, pois, para que a ajuda seja proveitosa, que quem dá os exercícios conheça bem os diversos modos de atuação dos diversos espíritos e as suas atuações concretas em quem faz os exercícios. Só assim poderá dar a ajuda adequada, bem adaptada à cada situação. Do contrário em vez de ajudar, atrapalharia. "Porque quanto lhe aproveitarão as regras da primeira semana, tanto lhe prejudicarão as da segunda". (EE 9 e 10).

CONTENTAR-SE COM O DOM ENCONTRADO, NÃO CAMINHAR SOZINHO
     Quem faz os exercícios não é o protagonista da caminhada, nem cria o processo. Prepara-se e dispõe-se para alcançar o que tanto deseja e que lhe é oferecido, gratuita e amorosamente. Não deve se preocupar com o que vem depois. Tudo é dom e graça surpreendente. A grandeza e a beleza do dom de hoje é a garantia do dom de amanhã. Por isso, quem faz os exercícios, "de tal modo trabalhe na primeira semana, para alcançar o que busca, como se na segunda, nada de bom esperasse encontrar". (EE 11)

NA CERTEZA DO DOM, PREPARAR-SE E DISPOR-SE COM ALEGRIA
     Há um tesouro escondido! Esta certeza leva o exercitante a uma procura atenta e minuciosa, através dos exercícios da meditação ou da contemplação. Estes não se assemelham a uma cadeia de montagem. Aproximam-se mais da busca das galerias subterrâneas à procura do metal precioso. Não se pode programar nem contabilizar antecipadamente o resultado. É dom encontrado! Sem dúvida, a procura se torna mais fácil sentindo-se a presença do precioso minério. A ausência destes indícios e os obstáculos adversos são estímulo para maior empenho na procura. "Quem dá os exercícios muito advirta a quem os recebe que procure sempre que o ânimo fique satisfeito em pensar que passou uma hora inteira no exercício...." . "Também se advirta que, no tempo da consolação é fácil e leve estar em contemplação a hora inteira, e muito difícil completá-la no tempo da desolação" (EE 12 e 13).
     A presença de um terreno rico em pedras preciosas ou a descoberta de uma de grande valor não deve levar a falsas presunções. Não se pode proclamar mais do que se viu. Nem caminhar fora da estrada. Cabe aceitar e comprometer-se com o dom no ritmo e na medida em que é oferecido pelo doador. "Quem dá os exercícios, ao ver que quem os recebe, anda consolado e com muito fervor, previna-o para não fazer promessa nem voto algum inconsiderado e precipitado". (EE 14)

O CRIADOR E A CRIATURA, SEM INTERMEDIÁRIOS
     Também quem dá os exercícios não domina o processo. Nem é senhor de quem faz os exercícios. Nem doador de dons. Nem salvador da Pátria. Quem dá os exercícios procure garantir o processo. Denuncie os desvios. Testemunhe, admirado, os acertos. Contemple o Criador abraçando sua criatura "em seu amor e louvor e dispondo-a para o caminho em que melhor poderá servi-lo depois. Assim, aquele que dá os exercícios não opte nem se incline a uma parte ou a outra, mas, ficando no meio, como o fiel de uma balança, deixe, imediatamente, o Criador agir com a criatura e a criatura com seu Criador e Senhor". (EE 15)
     Quem faz os exercícios, embora se veja livre das influências externas provindas de quem lhe dá os exercícios, poderá sentir seus instintos egoístas interpondo-se e impedindo o diálogo franco e transparente com seu Criador e Senhor. Neste caso, deve agir com toda sua força no sentido contrário para que seus afetos e desejos voltem ao equilíbrio, como o fiel da balança. "Se a pessoa estiver desordenadamente afeiçoada e inclinada a alguma coisa, é muito conveniente empenhar-se, com todas as suas forças, em chegar ao contrário daquilo a que está mal afeiçoada". (EE 16)

IR ÀS FONTES DAS ÁGUAS PURAS, DESCARTAR OS TROPEÇOS.

     Quem dá os EE ajuda a garantir o processo. Jesus, no qual tudo foi criado e restaurado, mensageiro do amor do Pai, é o grande protagonista. O inveterado inimigo da natureza humana está sempre perturbando a caminhada. A liberdade de quem faz os exercícios acolhe, adere, quer e deseja o que é de Deus. Afasta, resolutamente, o que vem do inimigo. Não perde tempo enredando-se nos pensamentos que simplesmente provém de sua liberdade e querer. Estes podem, quando muito, indicar uma opção que deverá ser confirmada pelo Senhor. É muito mais proveitoso ir às fontes. Perceber quando o Senhor está atuando, para onde ele está, delicada, mas insistentemente, atraindo e movendo a vontade de quem faz os EE. Descobrir, também, para onde lhe estão levando as insídias do inimigo. Esta é a matéria da partilha com quem dá os exercícios. Este não precisa saber os pecados de quem faz os EE, nem os pensamentos do exercitante que "provem simplesmente de sua liberdade e querer" (EE 32). O importante é saber por onde sopram os espíritos. Os diversos espíritos em cada situação concreta. Só assim poderá ajudar o exercitante dando-lhe alguns esclarecimentos e exercícios adequados. "Quem dá os exercícios, não querendo indagar nem saber os pensamentos e pecados de quem os recebe, seja fielmente informado das várias agitações e pensamentos que os diversos espíritos lhe trazem. Porque, conforme o maior ou menor proveito, pode dar-lhe alguns exercícios espirituais convenientes de acordo com a necessidade da pessoa assim agitada" (EE 17).

NEM TODAS AS PESSOAS SÃO CHAMADAS AO DISCERNIMENTO CONTÍNUO
     Os EE devem ser dados "conforme à disposição das pessoas que desejam fazê-los". Nem todas são chamadas ao discernimento contínuo, à descoberta contínua de novos caminhos. Muitos desejam somente "chegar a certo grau de satisfação espiritual". Preferem ter logo as coisas claras e os caminhos bem definidos. Estas pessoas, "de pouca resistência", não suportariam, sem demasiada fadiga, o trabalho de perceber os consensos na atuação dos diversos espíritos, movendo e atraindo para determinada direção. Às pessoas assim dispostas "dêem-se o exame particular, depois o exame geral juntamente, de manhã, por meia hora, o modo de orar sobre os mandamentos, sobre os pecados capitais, etc..." (EE 18).

EXERCÍCIOS DE ORAÇÃO EM MEIO ÀS ATIVIDADES COTIDIANAS E ATIVIDADES COTIDIANAS LUGAR DA DESCOBERTA DE DEUS.
     Os compromissos quotidianos, familiares e profissionais de tantas pessoas, não lhes permitem, muitas vezes, reservar tempo suficientemente longo para se dedicarem aos EE, num lugar afastado em regime de internato. A solução é encontrarem, no seu cotidiano, um espaço e um tempo para o exercício de oração. "Sendo pessoa culta e inteligente, reserve hora e meia cada dia para fazer os exercícios". Além disso, com a prática, as próprias atividades cotidianas vão proporcionar espaço para a descoberta da ação dos diversos espíritos. Serão também, de imediato, no desenrolar do cotidiano, campo para a aferição da verdade e da consistência real das deliberações formuladas no âmbito da oração. Os EE na vida cotidiana se revestem, assim, de concretude e realismo. As fugas e idealismo são logo desmascarados. Está sempre presente uma chamada para o real. A oração vai junto com a História, lugar exclusivo do encontro do Deus encarnado. "Para a contemplação dos mistérios de Cristo Nosso Senhor, siga-se o mesmo método que adiante se explicará longamente" (EE'19).

ISOLADO E EXCLUSIVAMENTE DEDICADO AOS EE, MAIS DISPONIVEL PARA PERCEBER MAIORES GRAÇAS.
     Quem puder se isole e se dedique totalmente aos EE. "Neles, ordinariamente, tanto mais se aproveitará, quanto mais se afastar de todos os amigos e conhecidos e de toda preocupação terrena. Mudando-se, por exemplo, da casa onde mora, passando a outra casa ou quarto para ali habitar o mais retirado que puder" (EE 20).
     Este gesto atrairá o favor e as atenções do Senhor Jesus, sempre respeitoso da liberdade da pessoa humana. A quem não quer, Ele não força. Quem procura, acha. "A pessoa se afastando de muitos amigos e conhecidos, e também de muitos negócios não bem ordenados, para servir e louvar a Deus Nosso Senhor, não pouco merece diante de sua divina Majestade" (EE 20).
A pessoa humana assim afastada "usa mais livremente de suas potências naturais, para procurar com diligência o que tanto deseja" (EE 20).
     "Quanto mais se acha a pessoa a sós e afastada, mais apta se torna para se aproximar e chegar a seu Criador e Senhor. Quanto mais assim se achega, tanto mais se dispõe para receber graças e dons de sua divina e suma bondade" (EE 20).

 
 

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