EXPERIÊNCIA FUNDAMENTAL


EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS NA VIDA CORRENTE (EVC), PERSONALIZADOS
A EXPERIÊNCIA FUNDAMENTAL DA ESPIRITUALIDADE
DO LEIGO IÑIGO DE LOYOLA

      Inácio de Loyola, então conhecido por Iñigo, era um nobre espanhol. Ao defender com muita bravura a fortaleza de Pamplona foi atingido por uma bala de canhão que lhe quebrou uma das pernas. Levado para o castelo da família se submeteu a um longo e penoso tratamento. A convalescença ainda se prolongou mais porque quis se submeter a nova cirurgia para corrigir os defeitos da primeira cirurgia que o deixou com uma perna mais curta que a outra.
      Nesta longa convalescença pediu livros de cavalaria para ocupar o tempo. Sua cunhada, dona Magdalena, emprestou-lhe dois livros muito belos, que havia trazido casualmente da corte em que serviu à rainha Isabel. Eram uma Vita Christi e umas Vidas de Santos.
      Num primeiro momento Iñigo nem se interessou por estes livros. Contudo como lhe sobrava tempo abundante começou a lê-los. Agora é que começou a acontecer algo novo que resultou por mudar totalmente a vida de Iñigo de Loyola.
      Depois que lia estes livros surgiam na mente de Iñigo pensamentos e desejos de fazer como os santos e como Jesus. Se São Francisco fez isso, eu quero fazer mais ainda dizia Santo Inácio. E que maravilha a vida de Jesus Cristo! Contudo, sucessivamente a estes pensamentos e desejos vinham-lhe os desejos que há tanto tempo acalentava e que em busca de sua realização tinha se submetido a atrozes cirurgias. Passava a mão na perna e via que as cicatrizes estavam se fechando, que poderia, brevemente, colocar aquela polaina bonita e entrar na corte garbosamente e conquistar a dama de sua vida, mais que duquesa e mais que condessa, a Catarina, irmã mais moça de Carlos V, segundo os historiadores modernos.
      Estes pensamentos e desejos contraditórios se sucediam e ocupavam as suas longas horas de convalescente. Os desejos de imitar Cristo e os Santos e os desejos de conquistas mundanas. Contudo, e aqui está o ponto mais significativo e que foi uma grande graça do Senhor Jesus: um dia chegou a perceber que quando pensava em comer ervas, seguir o exemplo dos santos e imitar Jesus Cristo sentia uma alegria nova, diferente, que acontecia não somente quando se ocupava nestes pensamentos, mas que perdurava mesmo depois que os deixava. Ao passo que quando pensava nas conquistas mundanas sentia prazer somente quando se ocupava com estes pensamentos e ficava triste e abatido depois que os deixava.
      Diante desta constatação, diante desta experiência nova em sua vida, Iñigo resolveu se entregar àquilo, ou Àquele que lhe dava mais vida! E assim começou toda uma caminhada de discernimento e de entrega a esta nova vida que foi logo percebida pelo seu irmão e cunhada, donos do castelo onde residia e por outras pessoas do mesmo castelo.
      Logo que se sentiu restabelecido saiu do castelo com a intenção de conhecer melhor esta nova vida e se dedicar a ela. Dirigiu-se ao Santuário de Monserrate, onde depois de passar em vigília toda a noite de 25 de maço entregou à Virgem sua espada de cavaleiro e, vestindo-se como pobre peregrino, foi se abrigar numa gruta e nos hospitais de vila de Manresa.


Você pode também tomar contato com estas realidades pelas próprias palavras de Santo Inácio na Autobiografia.


      "6. Lendo-os muitas vezes (os livros da Vida de Cristo e da Vida dos Santos), algum tanto ia-se afeiçoando ao que ali estava escrito. Mas, deixando-os de ler, algumas vezes parava a pensar no que havia lido. Outras vezes, pensava em assuntos do mundo, em que antes costumava pensar. De muitas vaidades que se lhe apresentavam, uma se apossara tanto de seu coração, que ficava logo embebido a pensar nela duas e três e quatro horas sem perceber. Imaginava o que faria em serviço de uma senhora, os meios que empregaria para poder ir à terra onde ela se achava, os motes, as palavras que lhe diria, os feitos de armas que empreenderia em seu serviço. Ficava com isso tão desvanecido que não olhava quão impossível era poder alcançá-lo. Porque a senhora não era de vulgar nobreza, nem condessa, nem duquesa, mas seu estado era mais alto que qualquer destes."
      "7. Contudo Nosso Senhor o socorria, fazendo suceder a estes pensamentos outros que nasciam de suas leituras. Porque, lendo a vida de Nosso Senhor e dos Santos, parava a pensar, raciocinando consigo: "E se eu realizasse isto que fez S. Francisco? e isto que fez S. Domingos?" Assim discorria por muitos assuntos que achava bons, propondo sempre a si mesmo empresas dificultosas e grandes: quando as propunha, lhe parecia encontrar em si facilidade para executá-las. Mas todo o seu discorrer era falar consigo: "S. Domingos fez isto; pois eu hei de fazê-lo! S. Francisco fez isto; pois eu hei de fazê-lo! Duravam também estas idéias, longas horas. Intrometiam-se outros assuntos e tornavam os do mundo, como acima se disse, e neles parava bom espaço. Esta sucessão de pensamentos tão diversos durou bastante tempo: detinha-se sempre no pensamento que voltava, ora dos feitos mundanos que desejava realizar, ora dos assuntos de Deus que se lhe ofereciam à fantasia, até se sentir cansado. Então o deixava e atendia a outras ocupações."

      "8. Notou, todavia, esta diferença: quando pensava nos assuntos do mundo, tinha muito prazer; mas, quando, depois de cansado, os deixava, achava-se seco e descontente. Ao contrário, quando pensava em ir a Jerusalém descalço, em não comer senão verduras, em imitar todos os mais rigores que via nos Santos, não se consolava só quando se detinha em tais pensamentos, mas ainda, depois de os deixar, ficava contente e alegre. Mas não reparava nisso, nem parava a ponderar esta diferença, até que uma vez se lhe abriram um pouco os olhos, e começou a maravilhar-se desta diversidade e refletir sobre ela. Colheu então, por experiência, que de uns pensamentos ficava triste e de outros alegre. Assim veio pouco a pouco a conhecer a diversidade dos espíritos que o moviam, um do demônio e outro de Deus." (O negrito é nosso).

"(Esta foi a primeira reflexão que teve nos assuntos de Deus. Depois quando fez os Exercícios, começou daqui a tomar luz para as Regras dos Espíritos).Nota marginal do Pe. Câmara, que transcrevia o que Santo Inácio ditava. Autobiografia de Inácio de Loyola, tradução e notas de Pe. Armando Cardoso, SJ, 6ª edição outubro de 2000, Edições Loyola.

 


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